Doença do refluxo gastroesofágico e esôfago de Barrett

stomachache, acid reflux, gastritis-6509430.jpg
Compartilhe com seus amigos

  • 1 ano atrás
  • 4minutos

O refluxo gastroesofágico é um evento fisiológico e sem repercussões clínicas, resultante do relaxamento do esfíncter esofágico inferior (EEI). No entanto, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma afecção crônica caracterizada pelo fluxo retrógrado crônico de conteúdo gastroduodenal, causando sinais e/ou sintomas, associados ou não a lesões teciduais.

Etiopatogênese

  • Doença multifatorial:
    • Defeitos (anatômicos e/ou funcionais) da junção esofagogástrica;
    • Estados de hipersecreção gástrica;
    • Distúrbios funcionais ou mecânicos do esvaziamento gástrico (transbordamento);
    • Distúrbios do esvaziamento esofágico (não clareamento).
  • Causas:
    • Hérnia hiatal por deslizamento;
    • Hipotonia do EEI;
    • Gastroparesia;
    • Relaxamento transitório do EEI;
    • Obesidade;
    • Peristaltismo esofágico ineficiente.

Quadro clínico

  • Sintomas típicos:
    • Pirose (dor retroesternal em queimação);
    • Regurgitação de conteúdo gástrico.
  • Outros sintomas:
    • Dor torácica não cardíaca;
    • Eructações;
    • Disfagia;
    • Odinofagia;
    • Queimação epigástrica;
    • Sialorreia.
  • Sintomas extroesofágicos (atípicos):
    • Associações bem estabelecidas:
      • Tosse crônica;
      • Laringite crônica (disfonia);
      • Pigarro;
      • Asma;
      • Erosão dentária;
    • Associações sugeridas:
      • Faringite;
      • Globus faríngeo;
      • Sinusite crônica;
      • Fibrose pulmonar idiopática;
      • Otite média recorrente (com ou sem otalgia).
  • Sinais de alarme:
    • Disfagia;
    • Odinofagia;
    • Anemia;
    • Hemorragia digestiva;
    • Emagrecimento;
    • Dor torácica;
    • Dor epigástrica persistente;
    • Vômitos;
    • História familiar de câncer.

Diagnóstico

  • Anamnese:
    • Intensidade, frequência, e duração dos sintomas;
    • Fatores de melhora e piora;
    • Evolução;
    • Impacto na qualidade de vida.
  • Alguns protocolos sugerem frequência mínima de 2x/semana e duração mínima de 4 semanas para fechar o diagnóstico.
  • Presença ou gravidade de esofagite e de esôfago de Barrett aumentam com o tempo (iniciam-se após cerca de 6 meses, intensificam-se especialmente após cerca de 2 anos).
  • Pode-se optar por prova terapêutica sem realização de EDA em caso de:
    • Pacientes < 40 anos;
    • Manifestações típicas;
    • Sintomas há menos de 2 anos;
    • Ausência de sinais de alarme.

Diagnósticos diferenciais

  • Distúrbios motores do esôfago (acalasia);
  • Dispepsias funcionais;
  • Neoplasia gástrica;
  • Esofagite eosinofílica;
  • Pirose funcional;
  • Hipersensibilidade ao refluxo.

Propedêutica complementar

  • EDA: detecta e classifica esofagite, diagnostica complicações, exclui neoplasia;
  • REED/TC de tórax: diagnóstico de hérnias hiatais, encurtamento esofágico, acalasia, e dismotilidade gastroesofágica;
  • pHmetria esofágica de 24 h: padrão-ouro no diagnóstico de DRGE, bem indicada em caso de:
    • Sintomas atípicos;
    • Sintomas extraesofágicos;
    • Ausência de esofagite;
    • Esofagite não erosiva ou esofagite erosiva leve;
    • Falha terapêutica;
  • Manometria esofágica: avaliar pressão, peristaltismo, e motilidade do corpo esofágico e pressão no EEI, bem indicada em caso de:
    • Disfagia, odinofagia, e/ou emagrecimento (absoluta);
    • Pré-operatório (relativa);
  • Cintilografia: não invasivo, bem tolerado, avalia tempo de esvaziamento gástrico;
  • pHimpedanciometria: combina informações de pH e transporte do bolo alimentar, permitindo diagnosticar não apenas o refluxo ácido como também o alcalino.

Complicações

  • Esofagite erosiva: disfagia, odinofagia, e emagrecimento (dismotilidade esofágica);
  • Estenose péptica: mecanismo de defesa, levando a disfagia progressiva e odinofagia;
  • Úlcera esofágica péptica: risco de HDA, associação ao uso de AINEs;
  • Esôfago de Barrett/Adenocarcinoma.

Tratamento

Tratamento clínico

Medidas comportamentais

  • Elevar a cabeceira da cama (15 cm);
  • Limitar ingestão dos seguintes alimentos (caso associados com os sintomas):
    • Gordurosos;
    • Cítricos;
    • Café;
    • Bebidas alcoólicas;
    • Bebidas gasosas;
    • Menta;
    • Hortelã;
    • À base de tomate;
    • Chocolate;
  • Evitar medicamentos:
    • Colinérgicos;
    • Teofilina;
    • BCCs;
    • Alendronato;
  • Evitar deitar-se nas 2 h posteriores às refeições;
  • Evitar refeições copiosas;
  • Interromper o tabagismo;
  • Perder peso.

Medidas farmacológicas

  • Limitar a acidez gástrica:
    • Inibidores da bomba de próton (padrão-ouro);
    • Sais alcalinos;
    • Bloqueadores dos receptores H2;
  • Procinéticos.

Tratamento cirúrgico

Indicações

  • Indicações principais:
    • Refratariedade ao tratamento clínico:
      • Controle parcial dos sintomas;
      • Regurgitação importante apesar de alívio sintomático;
    • Pacientes em que é exigido tratamento de manutenção com IBPs (especialmente se jovens e/ou com baixo risco cirúrgico);
    • Intolerância ao tratamento clínico prolongado;
    • Presença de complicações da DRGE;
    • Grandes hérnias hiatais de deslizamento;
    • Sintomas extraesofágicos.
  • Importante avaliar possíveis causas de refratariedade ao tratamento clínico antes de indicar cirurgia:
    • Uso incorreto de medicações;
    • Não adesão às medidas comportamentais;
    • Refluxo não ácido;
    • Diagnóstico incorreto;
    • Distúrbio de motilidade associado.
  • Indicação cirúrgica deve ser feita cuidadosamente em pacientes:
    • Idosos e/ou com alto risco cirúrgico;
    • Obesos graus 2 ou 3 (estimular perda de peso prévia ou avaliar cirurgia bariátrica);
    • Psiquiátricos, drogadictos, ou com déficits cognitivos;
    • Com condições que aumentem a pressão intra-abdominal (ex.: abdominoplastia).

Técnica

Confecção de válvula antirrefluxo e correção de defeitos mecânicos, preferencialmente por via laparoscópica.

Prognóstico

  • Consequências naturais:
    • Disfagia temporária;
    • Dificuldade para eructar;
    • Agravamento de meteorismo/flatulência.
  • Complicações:
    • Disfagia persistente;
    • Estase gástrica/Síndrome do gás retido;
    • Recidiva.

Esôfago de Barrett

Substituição de epitélio escamoso esofágico por epitélio colunar de padrão intestinal, resistente ao refluxo (epitélio metaplásico de Barrett), que ocorre em decorrência de DRGE grave e prolongada.

Epidemiologia

  • Predomina em homens brancos, de 45-60 anos;
  • Pode estar presente 20 anos antes do diagnóstico;
  • Descrito em 4-10% dos pacientes submetidos a EDA;
  • Superdiagnosticado (deve-se repetir a EDA com múltiplas biópsias em centros de referência sempre que houver suspeita).

História natural

  • Lesão precursora de adenocarcinoma de esôfago (10% dos casos evoluirão para adenocarcinoma);
  • Regride em 55% dos pacientes submetidos a procedimento antirrefluxo, porém, questiona-se na literatura se a suposta regressão não trata-se, na verdade, de reepitelização e cicatrização sobre o epitélio metaplásico (que, portanto, deveria seguir sob vigilância endoscópica).

Manejo

  • Se não houver displasia:
    • Tratar DRGE;
    • Realizar EDA com biópsias (anualmente nos primeiros 2 anos, depois a cada 2-3 anos) para descartar displasia.
  • Se houver displasia de baixo grau: vigilância a cada 6-12 meses.
  • Se houver displasia de alto grau ou neoplasia: avaliar esofagectomia subtotal com esofagogastroplastia.
  • Em pacientes com contraindicação cirúrgica, pode-se realizar um dos seguintes:
    • Dissecção endoscópica submucosa (lesão superficial);
    • Ablação endoscópica;
    • Vigilância endoscópica a cada 3 meses.
  • Cirurgia é especialmente importante, pois:
    • Pacientes com Barrett tendem a ter DRGE mais grave, para a qual a cirurgia é mais eficaz no controle;
    • Uso de IBPs não impede o refluxo, e não neutraliza o refluxo alcalino;
    • Epitélio de Barrett é menos sensível, dificultando a associação entre melhora dos sintomas e resposta ao tratamento clínico;
    • Refluxo biliar tem importante papel na carcinogênese.

Referência(s)

Aula do professor Marco Antônio Rodrigues.


Compartilhe com seus amigos