O refluxo gastroesofágico é um evento fisiológico e sem repercussões clínicas, resultante do relaxamento do esfíncter esofágico inferior (EEI). No entanto, a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma afecção crônica caracterizada pelo fluxo retrógrado crônico de conteúdo gastroduodenal, causando sinais e/ou sintomas, associados ou não a lesões teciduais.
Etiopatogênese
- Doença multifatorial:
- Defeitos (anatômicos e/ou funcionais) da junção esofagogástrica;
- Estados de hipersecreção gástrica;
- Distúrbios funcionais ou mecânicos do esvaziamento gástrico (transbordamento);
- Distúrbios do esvaziamento esofágico (não clareamento).
- Causas:
- Hérnia hiatal por deslizamento;
- Hipotonia do EEI;
- Gastroparesia;
- Relaxamento transitório do EEI;
- Obesidade;
- Peristaltismo esofágico ineficiente.
Quadro clínico
- Sintomas típicos:
- Pirose (dor retroesternal em queimação);
- Regurgitação de conteúdo gástrico.
- Outros sintomas:
- Dor torácica não cardíaca;
- Eructações;
- Disfagia;
- Odinofagia;
- Queimação epigástrica;
- Sialorreia.
- Sintomas extroesofágicos (atípicos):
- Associações bem estabelecidas:
- Tosse crônica;
- Laringite crônica (disfonia);
- Pigarro;
- Asma;
- Erosão dentária;
- Associações sugeridas:
- Faringite;
- Globus faríngeo;
- Sinusite crônica;
- Fibrose pulmonar idiopática;
- Otite média recorrente (com ou sem otalgia).
- Associações bem estabelecidas:
- Sinais de alarme:
- Disfagia;
- Odinofagia;
- Anemia;
- Hemorragia digestiva;
- Emagrecimento;
- Dor torácica;
- Dor epigástrica persistente;
- Vômitos;
- História familiar de câncer.
Diagnóstico
- Anamnese:
- Intensidade, frequência, e duração dos sintomas;
- Fatores de melhora e piora;
- Evolução;
- Impacto na qualidade de vida.
- Alguns protocolos sugerem frequência mínima de 2x/semana e duração mínima de 4 semanas para fechar o diagnóstico.
- Presença ou gravidade de esofagite e de esôfago de Barrett aumentam com o tempo (iniciam-se após cerca de 6 meses, intensificam-se especialmente após cerca de 2 anos).
- Pode-se optar por prova terapêutica sem realização de EDA em caso de:
- Pacientes < 40 anos;
- Manifestações típicas;
- Sintomas há menos de 2 anos;
- Ausência de sinais de alarme.
Diagnósticos diferenciais
- Distúrbios motores do esôfago (acalasia);
- Dispepsias funcionais;
- Neoplasia gástrica;
- Esofagite eosinofílica;
- Pirose funcional;
- Hipersensibilidade ao refluxo.
Propedêutica complementar
- EDA: detecta e classifica esofagite, diagnostica complicações, exclui neoplasia;
- REED/TC de tórax: diagnóstico de hérnias hiatais, encurtamento esofágico, acalasia, e dismotilidade gastroesofágica;
- pHmetria esofágica de 24 h: padrão-ouro no diagnóstico de DRGE, bem indicada em caso de:
- Sintomas atípicos;
- Sintomas extraesofágicos;
- Ausência de esofagite;
- Esofagite não erosiva ou esofagite erosiva leve;
- Falha terapêutica;
- Manometria esofágica: avaliar pressão, peristaltismo, e motilidade do corpo esofágico e pressão no EEI, bem indicada em caso de:
- Disfagia, odinofagia, e/ou emagrecimento (absoluta);
- Pré-operatório (relativa);
- Cintilografia: não invasivo, bem tolerado, avalia tempo de esvaziamento gástrico;
- pHimpedanciometria: combina informações de pH e transporte do bolo alimentar, permitindo diagnosticar não apenas o refluxo ácido como também o alcalino.
Complicações
- Esofagite erosiva: disfagia, odinofagia, e emagrecimento (dismotilidade esofágica);
- Estenose péptica: mecanismo de defesa, levando a disfagia progressiva e odinofagia;
- Úlcera esofágica péptica: risco de HDA, associação ao uso de AINEs;
- Esôfago de Barrett/Adenocarcinoma.
Tratamento
Tratamento clínico
Medidas comportamentais
- Elevar a cabeceira da cama (15 cm);
- Limitar ingestão dos seguintes alimentos (caso associados com os sintomas):
- Gordurosos;
- Cítricos;
- Café;
- Bebidas alcoólicas;
- Bebidas gasosas;
- Menta;
- Hortelã;
- À base de tomate;
- Chocolate;
- Evitar medicamentos:
- Colinérgicos;
- Teofilina;
- BCCs;
- Alendronato;
- Evitar deitar-se nas 2 h posteriores às refeições;
- Evitar refeições copiosas;
- Interromper o tabagismo;
- Perder peso.
Medidas farmacológicas
- Limitar a acidez gástrica:
- Inibidores da bomba de próton (padrão-ouro);
- Sais alcalinos;
- Bloqueadores dos receptores H2;
- Procinéticos.
Tratamento cirúrgico
Indicações
- Indicações principais:
- Refratariedade ao tratamento clínico:
- Controle parcial dos sintomas;
- Regurgitação importante apesar de alívio sintomático;
- Pacientes em que é exigido tratamento de manutenção com IBPs (especialmente se jovens e/ou com baixo risco cirúrgico);
- Intolerância ao tratamento clínico prolongado;
- Presença de complicações da DRGE;
- Grandes hérnias hiatais de deslizamento;
- Sintomas extraesofágicos.
- Refratariedade ao tratamento clínico:
- Importante avaliar possíveis causas de refratariedade ao tratamento clínico antes de indicar cirurgia:
- Uso incorreto de medicações;
- Não adesão às medidas comportamentais;
- Refluxo não ácido;
- Diagnóstico incorreto;
- Distúrbio de motilidade associado.
- Indicação cirúrgica deve ser feita cuidadosamente em pacientes:
- Idosos e/ou com alto risco cirúrgico;
- Obesos graus 2 ou 3 (estimular perda de peso prévia ou avaliar cirurgia bariátrica);
- Psiquiátricos, drogadictos, ou com déficits cognitivos;
- Com condições que aumentem a pressão intra-abdominal (ex.: abdominoplastia).
Técnica
Confecção de válvula antirrefluxo e correção de defeitos mecânicos, preferencialmente por via laparoscópica.
Prognóstico
- Consequências naturais:
- Disfagia temporária;
- Dificuldade para eructar;
- Agravamento de meteorismo/flatulência.
- Complicações:
- Disfagia persistente;
- Estase gástrica/Síndrome do gás retido;
- Recidiva.
Esôfago de Barrett
Substituição de epitélio escamoso esofágico por epitélio colunar de padrão intestinal, resistente ao refluxo (epitélio metaplásico de Barrett), que ocorre em decorrência de DRGE grave e prolongada.
Epidemiologia
- Predomina em homens brancos, de 45-60 anos;
- Pode estar presente 20 anos antes do diagnóstico;
- Descrito em 4-10% dos pacientes submetidos a EDA;
- Superdiagnosticado (deve-se repetir a EDA com múltiplas biópsias em centros de referência sempre que houver suspeita).
História natural
- Lesão precursora de adenocarcinoma de esôfago (10% dos casos evoluirão para adenocarcinoma);
- Regride em 55% dos pacientes submetidos a procedimento antirrefluxo, porém, questiona-se na literatura se a suposta regressão não trata-se, na verdade, de reepitelização e cicatrização sobre o epitélio metaplásico (que, portanto, deveria seguir sob vigilância endoscópica).
Manejo
- Se não houver displasia:
- Tratar DRGE;
- Realizar EDA com biópsias (anualmente nos primeiros 2 anos, depois a cada 2-3 anos) para descartar displasia.
- Se houver displasia de baixo grau: vigilância a cada 6-12 meses.
- Se houver displasia de alto grau ou neoplasia: avaliar esofagectomia subtotal com esofagogastroplastia.
- Em pacientes com contraindicação cirúrgica, pode-se realizar um dos seguintes:
- Dissecção endoscópica submucosa (lesão superficial);
- Ablação endoscópica;
- Vigilância endoscópica a cada 3 meses.
- Cirurgia é especialmente importante, pois:
- Pacientes com Barrett tendem a ter DRGE mais grave, para a qual a cirurgia é mais eficaz no controle;
- Uso de IBPs não impede o refluxo, e não neutraliza o refluxo alcalino;
- Epitélio de Barrett é menos sensível, dificultando a associação entre melhora dos sintomas e resposta ao tratamento clínico;
- Refluxo biliar tem importante papel na carcinogênese.
Referência(s)
Aula do professor Marco Antônio Rodrigues.