Relato do Internato Rural (UFMG) — Três Marias, MG, 2o24/4

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  • 4 meses atrás
  • 13minutos

Como o documento de relatos do Rural fica gigante todos os trimestres, preferi fazer um relato separado para poder me aprofundar. Quem for sorteado para vir para Três Marias, pode falar comigo pelo Instagram em @amandadevasconcellos, eu passo detalhes mais sórdidos e macetes.

Para ver nossas peripécias em conjunto, o Instagram é @ruralquatromarias.

Comemoramos cair na nossa 1ª opção de cidade como quarteto com vinho. Infelizmente, as taças vieram furadas, de modo que fomos obrigados a tomar 4 garrafas.

Contexto: a gestão municipal

Em Três Marias, a atual gestão está para ser substituída pela oposição. Por isso, não sabemos como vão ficar as coisas. O internato rural em Três Marias é bem antigo, de modo que a relação da UFMG com a prefeitura é bem boa.

Isso posto, nós internos devemos tratar tudo com a coordenação da Atenção Primária à Saúde (APS), que tem coisas mais importantes para fazer que vigiar a gente. Então, em situações como férias de médicos, não se preocuparam em encontrar atividades ou campos de estágio substitutivos.

Às vezes surgiam demandas para os acadêmicos fazerem palestras para pacientes (ex.: câncer de mama, dislipidemia), alunos de escola (ex.: cuidados com o corpo), ou presidiários (ex.: alcoolismo, tuberculose), com certificado.

O estágio

Logo que chegamos, tivermos uma reunião com a coordenadora da APS, em que ficou definido que iríamos para as UBS em que médicos e equipe multi estivessem ok em nos receber. Como faríamos essa divisão era a nosso critério. Nem todas as UBS tinham vontade de ter acadêmico, ou sala para o acadêmico, então atendemos nas UBS:

Preferimos deixar cada um fixo em uma UBS (exceto o Crepaldi, que foi para o São Jorge e o Ermírio), mas isso fica a critério de vocês. Eu fiquei no Jardim, e alguns poucos dias no Ermírio.

Equipe das UBS

Acredito que só na UBS São Jorge a médica responsável, a Larissa, é formada há mais tempo. Nas demais, os médicos são recém-formados. No Jardim, as médicas eram a Ana Gabriela (saiu de lá agora no fim do ano) e a Priscylla (talvez saia de lá também), sendo que meu maior contato foi com a Priscylla. No Ermírio, era o Wesley, e, no Ipiranga, a Lidiane.

Por serem todos recém-formados, a sensação que tive foi de que, nos casos complicados, os médicos estavam lá para aprender junto com a gente, mais do que para dar a consultoria que nos habituamos a receber dos preceptores no HC. Isso tem suas vantagens, você pega mão de muita coisa, mas a desvantagem óbvia é de que alguns casos vão te deixar desesperado pela ajuda do House ou do Ênio.

A relação com os médicos é muito boa, já com as equipes tive a impressão que isso varia de UBS para UBS.

Autonomia

Temos bastante autonomia, embora não tenhamos carimbo. De nota, o CFM permite que o acadêmico tenha carimbo, mas, se ele for usado para fazer qualquer atividade exclusiva de médicos, você está cometendo o literal crime de exercício ilegal da medicina. Dificilmente o médico vai discordar da sua conduta, e, em geral, as discordâncias são eles adaptando nossas condutas utópicas do UpToDate à realidade de Três Marias.

Com o tempo, a equipe da UBS foi ganhando bastante confiança em mim também. Às vezes até demais: contavam comigo para responder a demandas muito específicas, ou me delegavam funções que não eram minhas de fato. Cabe a você colocar limite, mas eu gostei muito da maioria esmagadora dos profissionais com quem lidei.

Rotina de trabalho

Trabalhamos 4 dias por semana, sendo que a folga pode ser combinada para segunda ou sexta. Precisei faltar por 2 semanas, e não tive problemas em repôr as faltas às sextas. O turno começa entre 7h30 e 08h00, com 2h de almoço, terminando, no máximo, às 17h00, mas às vezes antes. Dá coisa de 8-9 pacientes/dia, mas não vão te pressionar por produção.

Atendemos exclusivamente nas UBS, que funcionam por demanda espontânea. Por isso, em alguns momentos a sensação é meio “UPA sala verde”, principalmente na UBS Ipiranga, mas, no Ermírio e, principalmente, no Jardim, atendi mais quadros crônicos.

O perfil dos pacientes é imediatista. Vão te procurar no momento em que têm uma tosse, e aí aproveitam para te pedir uma olhadinha nos exames, e casualmente você topa com uma HbA1C de 12% e uma TFG de 14. Vários não retornam depois que você começa a metformina (não com essa TFG, pelo amor de Deus) e a losartana, alguns implicam que você não passa antibiótico.

Não os culpo, porque a longitudinalidade deixa muito a desejar. Os prontuários são de papel (a previsão é que isso mude, eu mesma já bati o pé e fiz os meus no Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), passo os macetes depois para quem quiser), às vezes com letra ilegível, e, evidentemente, é difícil ter uma visão rápida de quem é aquele paciente se você precisa folhear ad aeternum até descobrir que ele teve um AVE em 1964. Rastreio atrasado é regra.

Atendemos clínica médica, principalmente adultos, mas também crianças com demandas espontâneas. Puericultura fica com o pediatra, e estão fofocando que vão contratar um pediatra no hospital e direcionar para lá as demandas espontâneas também. Fazemos alguns pré-natais (pode combinar com o médico de deixar para ele e pegar o resto dos pacientes, se você não gosta), mas queixas ginecológicas os médicos em geral preferem encaminhar que fazer o exame físico. 90% dos preventivos quem colhe é a enfermagem. Não fazemos cirurgia ambulatorial, até porque não tem material nas UBS.

Por fim, o Jardim costumava ter atendimento rural, que os meninos de 2024/3 disseram que era bem mais rápido que os dias comuns de trabalho, mas em 2024/4 teve alguma confusão e pararam de ter esses atendimentos.

Disponibilidade de recursos

Tem ar condicionado em algumas salas na maioria das UBS, e em geral os consultórios são bem equipados.

Temos facilmente a maioria dos exames de sangue. Raio-X você quase sempre vai conseguir no mesmo dia, e ultrassonografia vai conseguir até rápido, mas a cidade não tem tomógrafo, e a fila da ressonância magnética é gigante.

Os especialistas que me recordo de termos são psiquiatra, cardiologista, endocrinologista (que, se vocês buscarem no site do CFM, vão descobrir que não tem RQE), cirurgião geral, ortopedista, ginecologista, e pediatra. Para conseguir consulta com esses especialistas, é bem tranquilo. Os demais, boa sorte.

Temos acesso a nutricionista e psicóloga na UBS, e fisioterapeutas na SMS, mas nem sempre é rápido conseguir a consulta. Encaminhamentos e exames são lentos em Três Marias, o que se deve muito à cidade não ter regulação.

Além das UBS, a cidade tem, a nível SUS, um centro de Atenção Secundária e convênio com o Hospital São Francisco. As cidades de referência são Curvelo, Sete Lagoas, e, raramente, Belo Horizonte. Muitos pacientes se queixam que a SMS não tem fornecido transporte, mas nisso eu nunca me aprofundei.

Vocês vão perceber um gap entre o que o SUS oferece na teoria e na prática em Três Marias. Exemplo: alguns medicamentos que não estão na Rename estão na Remume (me peçam que eu mando), mas às vezes estão em falta, e alguns medicamentos da Rename não são sequer disponibilizados (eu sempre pedia para os pacientes reclamarem na ouvidoria, pois é direito deles ter acesso a esses medicamentos).

A casa

Viemos em quarteto, e não dividimos a casa com internos de outras faculdades ou cursos. A Marina é de Três Marias, de modo que resolvemos ficar na casa dela depois de 1 semana no apartamento que a prefeitura fornece, porque tivemos uma mini infestação de baratas.

Isso posto, eu espalhei inseticida pela casa inteira e tirei boa parte da tralha acumulada. Parece ter um vazamento debaixo da pia da cozinha, eu só não tive coragem de mexer no mofo que acabou acumulando lá, mas isso vocês conseguem resolver, talvez até com a SMS, que em tese se disponibilizou para resolver problemas que tivéssemos com a casa.

É um apartamento antigo e simples, no 2º andar (sem elevador), mas tem até mais que o básico, e o tamanho é bom, com 3 quartos (sendo uma suíte com cama de casal, um quarto com uma cama, e um quarto com duas) e 2 banheiros (incluindo a suíte).

Localização e transporte

O apartamento fica no coração da cidade, de modo que quase tudo você consegue resolver a pé. Porém, só as UBS São Jorge e Ermírio de Moraes ficam a uma distância caminhável. Vale a pena ter carro, porque a cidade não tem Uber (só uns aplicativos alternativos, o principal sendo o Rota Online, mas tem o Fui e alguns outros), o táxi é caro, e a prefeitura só tem oferecido transporte partindo da SMS às 06h30. Os meninos de 2024/3 usaram muito moto-táxi. Para ir para qualquer lugar na cidade, ou você enfrenta a 040 ou os quebra-molas mais mal-sinalizados que já vi na minha vida.

Recursos

Tem uma garagem no prédio, que suspeitamos que não podíamos usar, mas conseguimos uma cópia da chave do portão, que fica trancado à noite. Acreditamos que nossa garagem (que existe, pois recebemos a chave) fique num outro endereço, mas também não fomos conferir.

De eletrodomésticos, a casa tem:

  • Máquina de lavar (e varal, e tanquinho);
  • Fogão;
  • Microondas;
  • Geladeira, com um freezer pequeno;
  • Ventiladores de mesa e de chão (não em quantidade suficiente, tragam pelo menos 1 extra);
  • Televisão (pequena, não está pendurada).

A cozinha é bem equipada, mas vale trazer uns potes de sorvete e copos de requeijão. Tem 3 escrivaninhas na casa, e uma sala de jantar com mesa. Todas as cadeiras são de plástico. A sala de estar é o único cômodo um pouco escuro, e o quarto pequeno é o único com blackout. Todos os quartos têm armário, arara, ou ambos.

Por fim, a casa tem um filtro daqueles de galão e um filtro de barro novinho, que pedimos na Amazon e sequer abrimos. Os meninos de 2024/3 pediam os galões no Amaral, e pagavam R$25. Se quiserem fazer uma doação pelo filtro, que vai lhes economizar R$204,27 (12 semanas de estágio, 1 galão/semana), façam nesse pix e eu distribuo aos demais.

O dito filtro.

O Crepaldi também deixou 2 bicicletas na garagem do prédio, conversem com ele para mais informações.

Serviços

A prefeitura paga todas as contas, inclusive o wi-fi, que é bem bom. Também costumávamos ter uma diarista, a Sandrinha, que fazia comida e limpava. Todas as turmas anteriores a amavam, mas nem chegamos a conhecê-la, pois ela quebrou o pé. A comunicação com as substitutas que mandaram foi um pouco difícil, mas, na semana que passamos no apartamento da prefeitura, não ficamos sem limpeza ou comida.

A cidade

Notas relevantes sem categoria: Três Marias é muito quente e, quando chove, a energia fica instável.

Deslocamento de e para BH

De carro, você consegue fazer o trajeto (265 km mais ou menos) em 03h30 pela 040. No momento, ela está sem concessão, então, espere buracos.

De ônibus, isso é variável. A única empresa que faz o trajeto é a Viação Sertaneja, que tem ônibus muito confortáveis (e gelados). O preço é uns R$130-150 por trecho (depende da hora), e recomendo comprar pelo WhatsApp, que é sem taxas. Comprar na rodoviária também funciona, mas eles quase nunca estão no guichê em Três Marias, então, você só compra em cima da hora.

A raiva que vocês vão passar com a Sertaneja é em relação aos atrasos: os ônibus sempre atrasam pelo menos 20 min para chegar em Três Marias. Em teoria, os horários são:

  • Saídas de BH: 08h00 (exceto domingos), 11h00, e 21h30;
  • Saídas de 3M: 01h20, 09h50 (exceto sábados), e 15h10.

Reza a lenda que dá para combinar com a SMS e ir no ônibus da prefeitura para BH quando tem vaga (só combinar com o pessoal do Tratamento Fora de Domicílio), mas nós não tentamos. Também tem alguns taxistas que fazem o trajeto, mais ou menos pelo mesmo preço do ônibus, e grupos de carona no WhatsApp (mando os links e contatos para quem pedir).

Serviços

Vocês não vão passar nenhum aperto em Três Marias com relação ao básico, mas vão apanhar um pouco nos luxos (pessoalmente, sofri com os vinhos e as manicures, Crepaldi sofreu para achar remédios dos laboratórios em que ele confia). Isso posto, eu recomendo:

Lazer

Aqui, acho que Três Marias é das cidades do rural que mais tem opções, o que não significa tanta coisa. Em fim de semana, por exemplo, vários bares bizarramente fecham.

A represa é o destaque, e você pode apreciá-la com piscina e caipirinha no Náutico (day use de R$50, mas conseguíamos negociar R$40 quando íamos em bando), ou com vibe caótica de calçadão na Prainha.

Se quiser engordar, duas opções excelentes são a Lebolê (confeitaria de produtos excessivamente doces) e a Oggi Sorvetes (fábrica de picolés). Para comida mesmo, minhas recomendações são:

  • Grande Lago: restaurante chiquezinho de um hotel (com day use), que tem uma moqueca ótima e uma vista imbatível da represa, mas o atendimento é bizarramente demorado em dias de semana, e não acertam o ponto da carne;
  • Pinu’s Pizzaria: pizzaria bem tradicional, ambiente muito agradável, bom atendimento, pizza deliciosa, mas preço salgado;
  • Rei do Peixe: outro lugar tradicional, atendimento bom e rápido (algo que vocês vão ver que é raro aqui) com uma peixada divina.

Bares, meus colegas foram e gostaram do Vila’s (copo sujo) e do Tião Despachante Gastrobar, mas não fui junto, então, não posso falar muita coisa. Hamburguerias nós testamos a Premium e o Zero37, não achei nenhuma tão boa, mas a Premium é melhor. Tem dois bares musicais, que também não visitamos: o Rota Velho Chico (mais rock) e o Pub Beer (mais sertanejo).

De turismo, tem a Usina Hidrelétrica e o Museu Manuelzão (antiga casa do sertanejo que guiou Guimarães Rosa pelos sertões de Minas, o que vocês vão perceber que é um tema constante nos nomes de estabelecimentos de Três Marias). Infelizmente, não conheci nenhum dos dois. Se você tiver tido aula com o Ênio, vá ao Museu e depois conte para ele, ele vai ficar super feliz.

Minha opinião final

O rural foi, até o momento, o estágio de que mais gostei. Foi relativamente puxado, porque são 7h diárias de trabalho mesmo, sem os plantões de 12h mortos do HC, mas esse dinamismo foi algo que gostei muito. Fica pouco tempo para estudar para provas de residência, porém paciência.

A cidade de Três Marias é agradável também. Muito pequena para o meu gosto, mas todas as minhas necessidades básicas foram atendidas, e me diverti muito na represa. O fato de ser em quarteto também é excelente, porque eu e Crepaldi quase perdemos o réu primário um com o outro, e Marina e Bruna mesma coisa.

Claro, tivemos desafios, como todo Rural tem, mas esse é um rural em que os desafios são superáveis e os pontos positivos notáveis: proximidade relativa com BH, apartamento bem equipado, APS raiz, e muitas oportunidades de fazer uma diferença real na vida dos pacientes. Quem quiser vir para Três Marias, pode vir sem medo. Eu escolheria de novo fazer o Rural aqui.


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